Houve um tempo, aqui, no
Brasil, em que se jogava futebol. Todos jogávamos, mas todos mesmo, até quem não
sabia. Jogávamos em todos os lugares – em casa, na rua, num terreno baldio, na
escola, até num campo, vejam só. Campinho de terra era o máximo, campo com
traves era só para os bons-de-bola, aqueles que chegaram lá, na várzea. Tinha
cada time e cada campeonato de várzea aqui que eu nem te conto.
Agora, se o jogador fosse
muito bom, um craque, aí ele virava deus de figurinha. Deus de
figurinha era o jogador que a gente colava o retrato dele no álbum, sabia o
nome de tanto ouvir no rádio ou na televisão, sabia em que time e até em que
posição ele jogava. Mas não muito mais do que isso, pois deuses não são muito
acessíveis, não.
Nesse tempo, falava-se muito
sobre futebol, mas muito mesmo, porque não se podia falar de outra coisa. Era
proibido, pelo governo ou pela igreja, não necessariamente nesta ordem,
discutir coisas como sexo, religião e política. Se te pegassem falando sobre
esses assuntos você era condenado ao inferno ou à prisão, e ninguém sabia qual era
o pior. Talvez sejam a mesma coisa.
O Brasil já era tricampeão
mundial, pois os deuses de figurinha brasileiros eram a grande maioria. Apesar
disso, o tempo foi passando e nada do tetracampeonato vir, até que colocaram, como
técnico da seleção, um deus de figurinha aposentado e que gostava de futebol. A
seleção de deuses de figurinha que ele montou ganhou um monte de títulos: “a
melhor”, “a que realmente merecia”, “a de futebol mais bonito”, “a que tinha os
melhores jogadores”, “a mais ofensiva”, “a inesquecível”. Mas não, o Brasil não ficou campeão.
Nessa seleção tinha um deus
de figurinha que era diferente dos demais não porque jogasse melhor, mas porque
falava das coisas proibidas. Ele não foi para a prisão e nem para o inferno
porque deuses não vão para esses lugares, e ignora-se por que os outros deuses também
não falavam sobre essas coisas.
Talvez não fossem realmente deuses.
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