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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Dezessete anos


Gotemburgo, Suécia, 19 de junho de 1958
O menino de dezessete anos, na marca do pênalti e de costas para o gol, aguarda escoltado. O meia-armador de seu time, numa disputa com o adversário, escora a bola de cabeça na sua direção, fazendo um passe à meia altura.
Ele recebe amaciando-a no peito, ao mesmo tempo em que gira o corpo na direção do gol, e sem deixá-la cair, dá uma puxadinha por cima da perna direita do beque. A bola dá um quique no chão, e o menino, já de frente, a chuta de peito-de-pé para o fundo das redes, canto direito do goleiro que saía desesperado.
O beque galês, cuja única vez que moveu o quadril foi para poder sair de dentro do ventre da mãe, quando termina o seu giro só acompanha o movimento do menino, que vai aos pulos recuperar a bola.
Foi o primeiro gol em copas do mundo do maior artilheiro de todos os tempos.
Belo Horizonte, Brasil, 07 de novembro de 1993
O mesmo menino, mas outro menino de dezessete anos, observa dentro da grande área enquanto o lateral direito de seu time faz um cruzamento alto. A bola viaja paralela às traves, passa por cima de vários jogadores e cai do outro lado, de frente para a trave direita do goleiro. O atacante que vinha entrando na corrida a chuta de pé esquerdo para o gol, mas o goleiro, uruguaio veterano e considerado um dos grandes, faz a defesa sentando na bola e a segura antes que ela passe por baixo das suas pernas. De posse dela e de joelhos, vira-se para suas redes e ergue as mãos em sinal de incredulidade, abandonando-a no gramado a sua frente. O menino, já perto dela e cheio de cobiça, vendo a chance simplesmente toma-a com um toque de pé direito e, ante o espanto de todos, a empurra para o fundo do gol.
Foi o quinto gol neste jogo do maior artilheiro de todas as copas do mundo.
Santo André, Brasil, 4 de fevereiro de 2010
O mesmo menino, mas ainda outro menino com dezessete anos, espera outra bola, desta vez pela esquerda do ataque. Ele a recebe em movimento, enquanto a defesa se posiciona em linha tentando proteger o seu goleiro. Sabem, e temem quando o menino parte em sua direção, avançando numa diagonal. O estádio silencia, o tempo pára.
Chega o primeiro, que junto com todos pensa que o menino irá realizar àquela ginga que o leva à linha de fundo. Um leve toque com o pé direito e a bola passa a milímetros do contrapé do beque, o primeiro a cair sentado.
Trinta e sete centímetros depois está o segundo, que vê a bola chegando e estica a perna direita para acabar com a brincadeira do menino. A chuteira do beque vai tocar a bola, mas cadê a bola? Continua com o menino, já depois do segundo e pronta para ser chutada de canhota.
Mas há um terceiro, e este coloca a perna na frente da trajetória do gol. Em lugar do chute, outro leve toque, outro contrapé, outro beque de bunda no chão. É mais um que pensa: - no final do jogo vou pedir a camisa desse moleque!
O quarto, este finca os dois pés na grama e fica de frente para o menino, olhando prá ele e encarando-o com os braços arqueados. Só percebe que a bola passou por entre as suas pernas quando o tempo volta a correr e todos gritam, inclusive o goleiro que a busca no fundo do gol.
Foi o primeiro gol mais bonito do menino.

Escrito em 10 de fevereiro de 2010

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